sábado, 30 de outubro de 2010

Meio gás

Já é final da semana, novamente. Os dias passam e só os vejos quando já não existem. Acordo, tomo o pequeno-almoço, visto-me, lavo os dentes, calço-me, pego na mala da Faculdade, saio de casa a 5 minutos do 161 sair da Costa da Caparica, vou a correr até à paragem, entro no autocarro, sento-me (ou não), saio em Alcântara-Terra, vou a um ritmo acelerado até Alcântara-Mar, apanho o Semi-Rápido da SP, vou até Algés, vejo o 76 na paragem e começo a correr, entro no 76, 10 minutos depois estou na Faculdade, tenho aulas a merda do dia todo  e repito este longo caminho no sentido inverso para chegar a casa.
Cansativo não? Chato? Um bocado. Tudo isto podia ser vivido com grande emoção se já não tivesse sido vivido praí desde há um ano. Revolta-me já não aproveitar a vista sobre o Tejo e sobre a grande Lisboa quando ainda há milhares de luzes acesas, de não reparar em cada detalhe, em cada traço do rosto das pessoas que estão no autocarro. Tenho tudo alí à frente e já me parece tudo um disco riscado, como se o caminho que tenho de percorrer para o futuro fosse apenas uma faixa encravada.
Chega a uma altura em que as pessoas se acomodam àquilo que têm, deixando de dar importância ao que se tem, mesmo que seja igual todos os dias. "Aquilo" ou "aquele momento" é nosso. Não seria pior não o ter? Quantas pessoas não desejavam ver o Tejo a ganhar vida pela manhã e não têm essa oportunidade? Quantas pessoas não sonham em fazer o mesmo caminho todos os dias para a Faculdade, mas não o fazem porque a vida mudou-lhes a corrente da maré? Diria que algumas, só para não ter de dizer que são muitas.
O exemplo do trajecto para a Faculdade, para muitos, poderá, ser um exemplo mais estúpido, sem sentido. Talvez. Mas pergunto: e o exemplo de termos quem nos aconchegue quando chegamos a casa? Termos o estômago a sentir-se desprezado e chegar a casa e ter o nosso prato favorito pronto a servir, feito daquela maneira especial que só a nossa mãe sabe fazer? Demasiado banal não? Não devia ser, mas é. Muitos não têm essa oportunidade, mas nós temos e o que fazemos? Achamos banal. Como ontém isso aconteceu, amanhã vai acontecer, por isso que se lixe. Secalhar é mais real este exemplo não?
Escrevo estas palavras não como senhor do conhecimento, como Mestre, que sabe o que deve ser feito, faz e ainda diz aos outros como fazer. Nada disso. Sou Mestre em fazer exactamente o que escrevo. O capítulo que decorre entre o acordar e o chegar à Faculdade, que desprezo na maior parte dos dias, é só um exemplo que esconde muitos outros iguais.
Pergunto-me: Será que vamos só aprender a dar valor ao que temos, quando não o tivermos?
Cabe a cada um decidir o que fazer ao seu dia-a-dia. Eu vou tentar que cada dia seja mais sentido que o outro. Vou entrar no autocarro e procurar caras novas e, mesmo que não as encontre, vou reparar na roupa nova que as caras já conhecidas têm. Vou atravessar o Tejo e contar quantos barcos por ele navegam, tentar focar cada ponto luminoso que por Lisboa mora. Vou acordar e dizer que hoje vai ser o melhor dia de todos os dias, que hoje vou marcar a diferença aproveitando tudo o que vejo, cheiro, saboreio, sinto, oiço, e amo. Tudo o que é meu.
O Natal é todos os anos, mas não é por isso que temos de dar sempre as mesmas prendas, pois não?

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