Já é final da semana, novamente. Os dias passam e só os vejos quando já não existem. Acordo, tomo o pequeno-almoço, visto-me, lavo os dentes, calço-me, pego na mala da Faculdade, saio de casa a 5 minutos do 161 sair da Costa da Caparica, vou a correr até à paragem, entro no autocarro, sento-me (ou não), saio em Alcântara-Terra, vou a um ritmo acelerado até Alcântara-Mar, apanho o Semi-Rápido da SP, vou até Algés, vejo o 76 na paragem e começo a correr, entro no 76, 10 minutos depois estou na Faculdade, tenho aulas a merda do dia todo e repito este longo caminho no sentido inverso para chegar a casa.
Cansativo não? Chato? Um bocado. Tudo isto podia ser vivido com grande emoção se já não tivesse sido vivido praí desde há um ano. Revolta-me já não aproveitar a vista sobre o Tejo e sobre a grande Lisboa quando ainda há milhares de luzes acesas, de não reparar em cada detalhe, em cada traço do rosto das pessoas que estão no autocarro. Tenho tudo alí à frente e já me parece tudo um disco riscado, como se o caminho que tenho de percorrer para o futuro fosse apenas uma faixa encravada.
Chega a uma altura em que as pessoas se acomodam àquilo que têm, deixando de dar importância ao que se tem, mesmo que seja igual todos os dias. "Aquilo" ou "aquele momento" é nosso. Não seria pior não o ter? Quantas pessoas não desejavam ver o Tejo a ganhar vida pela manhã e não têm essa oportunidade? Quantas pessoas não sonham em fazer o mesmo caminho todos os dias para a Faculdade, mas não o fazem porque a vida mudou-lhes a corrente da maré? Diria que algumas, só para não ter de dizer que são muitas.
O exemplo do trajecto para a Faculdade, para muitos, poderá, ser um exemplo mais estúpido, sem sentido. Talvez. Mas pergunto: e o exemplo de termos quem nos aconchegue quando chegamos a casa? Termos o estômago a sentir-se desprezado e chegar a casa e ter o nosso prato favorito pronto a servir, feito daquela maneira especial que só a nossa mãe sabe fazer? Demasiado banal não? Não devia ser, mas é. Muitos não têm essa oportunidade, mas nós temos e o que fazemos? Achamos banal. Como ontém isso aconteceu, amanhã vai acontecer, por isso que se lixe. Secalhar é mais real este exemplo não?
Escrevo estas palavras não como senhor do conhecimento, como Mestre, que sabe o que deve ser feito, faz e ainda diz aos outros como fazer. Nada disso. Sou Mestre em fazer exactamente o que escrevo. O capítulo que decorre entre o acordar e o chegar à Faculdade, que desprezo na maior parte dos dias, é só um exemplo que esconde muitos outros iguais.
Pergunto-me: Será que vamos só aprender a dar valor ao que temos, quando não o tivermos?
Cabe a cada um decidir o que fazer ao seu dia-a-dia. Eu vou tentar que cada dia seja mais sentido que o outro. Vou entrar no autocarro e procurar caras novas e, mesmo que não as encontre, vou reparar na roupa nova que as caras já conhecidas têm. Vou atravessar o Tejo e contar quantos barcos por ele navegam, tentar focar cada ponto luminoso que por Lisboa mora. Vou acordar e dizer que hoje vai ser o melhor dia de todos os dias, que hoje vou marcar a diferença aproveitando tudo o que vejo, cheiro, saboreio, sinto, oiço, e amo. Tudo o que é meu.
O Natal é todos os anos, mas não é por isso que temos de dar sempre as mesmas prendas, pois não?
Cansativo não? Chato? Um bocado. Tudo isto podia ser vivido com grande emoção se já não tivesse sido vivido praí desde há um ano. Revolta-me já não aproveitar a vista sobre o Tejo e sobre a grande Lisboa quando ainda há milhares de luzes acesas, de não reparar em cada detalhe, em cada traço do rosto das pessoas que estão no autocarro. Tenho tudo alí à frente e já me parece tudo um disco riscado, como se o caminho que tenho de percorrer para o futuro fosse apenas uma faixa encravada.
Chega a uma altura em que as pessoas se acomodam àquilo que têm, deixando de dar importância ao que se tem, mesmo que seja igual todos os dias. "Aquilo" ou "aquele momento" é nosso. Não seria pior não o ter? Quantas pessoas não desejavam ver o Tejo a ganhar vida pela manhã e não têm essa oportunidade? Quantas pessoas não sonham em fazer o mesmo caminho todos os dias para a Faculdade, mas não o fazem porque a vida mudou-lhes a corrente da maré? Diria que algumas, só para não ter de dizer que são muitas.
O exemplo do trajecto para a Faculdade, para muitos, poderá, ser um exemplo mais estúpido, sem sentido. Talvez. Mas pergunto: e o exemplo de termos quem nos aconchegue quando chegamos a casa? Termos o estômago a sentir-se desprezado e chegar a casa e ter o nosso prato favorito pronto a servir, feito daquela maneira especial que só a nossa mãe sabe fazer? Demasiado banal não? Não devia ser, mas é. Muitos não têm essa oportunidade, mas nós temos e o que fazemos? Achamos banal. Como ontém isso aconteceu, amanhã vai acontecer, por isso que se lixe. Secalhar é mais real este exemplo não?
Escrevo estas palavras não como senhor do conhecimento, como Mestre, que sabe o que deve ser feito, faz e ainda diz aos outros como fazer. Nada disso. Sou Mestre em fazer exactamente o que escrevo. O capítulo que decorre entre o acordar e o chegar à Faculdade, que desprezo na maior parte dos dias, é só um exemplo que esconde muitos outros iguais.
Pergunto-me: Será que vamos só aprender a dar valor ao que temos, quando não o tivermos?
Cabe a cada um decidir o que fazer ao seu dia-a-dia. Eu vou tentar que cada dia seja mais sentido que o outro. Vou entrar no autocarro e procurar caras novas e, mesmo que não as encontre, vou reparar na roupa nova que as caras já conhecidas têm. Vou atravessar o Tejo e contar quantos barcos por ele navegam, tentar focar cada ponto luminoso que por Lisboa mora. Vou acordar e dizer que hoje vai ser o melhor dia de todos os dias, que hoje vou marcar a diferença aproveitando tudo o que vejo, cheiro, saboreio, sinto, oiço, e amo. Tudo o que é meu.
O Natal é todos os anos, mas não é por isso que temos de dar sempre as mesmas prendas, pois não?


